ESTER MENDES

Um dos grandes problemas da natação brasileira contemporânea é o abandono precoce de atletas. Jovens com idade entre 14 e 16 anos, que teoricamente estariam em tempo de despontarem na modalidade, acabam desistindo das competições, dos treinamentos e às vezes, até mesmo desenvolvendo verdadeira aversão à modalidade. Existem muitos relatos de ex-atletas que nunca mais voltam a entrar em uma piscina. Burnout significa queimar até o final; isto é, o indivíduo esgota todas as suas forças para vencer as demandas da sua atividade. O sentimento de esgotamento, de altíssimo estresse, insatisfação com os próprios resultados e rotinas de treinamento são alguns dos sintomas relatados por jovens nadadores. Esses sintomas são comuns à Síndrome de Burnout, que atinge em geral adultos, por estar relacionada ao estresse profissional. Um estudo realizado em 2013 por pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco avaliou a exposição de 102 atletas de natação (65 masculinos e 37 femininos; 14 a 19 anos) às causas do Burnout total. Os sentimentos do Burnout foram analisados pelo Athlete Burnout Questionnaire – ABQ criado por RAEDEKE e SMITH (2001) cuja versão em português foi validada por Pires, Brandão e Silva (2006) utilizando como amostra atletas brasileiros de diferentes modalidades esportivas. O questionário contém 15 afirmações, divididas em três categorias: “exaustão física e emocional”, “reduzido senso de realização esportiva” e “desvalorização da modalidade esportiva”. Para cada afirmação, o atleta deve marcar apenas uma opção dentre as cinco disponíveis: : (1) “Quase nunca”; (2) “Raramente”; (3) “Algumas vezes”; (4) “Frequentemente” e (5) “Quase sempre”. Os resultados mostraram que 24,5% destes jovens atletas estavam expostos à Síndrome de Burnout total, isto é, assinalaram as opções “frequentemente” e/ou “quase sempre” nas afirmações do questionário. A exposição à exaustão física e emocional está relacionada à rotina de treinamentos intensos e 35,3% dos atletas enquadraram-se nesse perfil; 64.7% da amostra indicou exposição ao reduzido senso de realização esportiva, que significa a percepção de não ter alcançado as metas ou de que o rendimento ficou abaixo de suas expectativas; 22.5 % indicaram exposição à desvalorização da modalidade esportiva. Esta última indica que o atleta dá menos valor ao esporte que pratica em comparação com outras atividades da sua vida. Neste estudo, não foram encontradas diferenças significativas entre meninos e meninas e nem entre as diferentes categorias de competição. Entretanto, pesquisas anteriores realizadas por outros autores sugerem que as mulheres apresentam sintomas de estresse de forma mais pronunciada do que os homens. Um estudo realizado por Keller et al. (2005), com jogadoras de voleibol, mostrou que as atletas mais experientes apresentavam níveis mais baixos de estresse. Os resultados dessas atletas de voleibol vão de encontro à teoria de que o enfrentamento positivo do estresse, que depende de recursos comportamentais e cognitivos (diretamente relacionados ao tempo de experiência em situações específicas), permite o manejo mais adequado do estresse. Saber lidar com as situações de pressão evitaria o estresse crônico e também o desenvolvimento da síndrome de esgotamento. A partir desses fatos, podem ser feitas algumas reflexões: – Será que nossos jovens atletas estão sendo tratados como profissionais antes do tempo? – Os técnicos das categorias de base estão preparados para ensinar seus atletas a lidar com as situações de pressão? – Os jovens nadadores brasileiros visualizam metas reais no esporte? Quais são suas expectativas? – A pressão natural do ambiente competitivo está sendo trabalhada de forma adequada durante os treinamentos, ou os atletas vivenciam-na somente no dia da competição? Os dados sobre o abandono da natação nas categorias Juvenil e Junior sugerem que ferramentas de manejo do estresse devem ser oferecidas aos jovens nadadores para que eles possam aprender a usar a pressão a seu favor, construindo um futuro mais promissor para a natação brasileira.

Referência: COSTA, M. S. F.; OLIVEIRA, S. F. M.; FARAH, B.Q.; GUIMARÃES, F. J. P.; SANTOS, M. A. M. Síndrome do Burnout entre jovens nadadores: frequências de sentimentos independentes do gênero e da categoria de competição. Rev. Educ. Fís/UEM, v. 25, n. 2, p. 173-180, 2014. Disponível em: http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/RevEducFis/article/view/22177

 

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