Habilidades aquáticas desenvolvidas são fundamentais para o autossalvamento e prevenção de afogamentos.

Em fevereiro de 2014, a Associação Brasileira de Canoagem utilizava a Represa de Guarapiranga, em São Paulo como centro de treinamento. Uma atleta de 15 anos, membro da equipe de velocidade saiu desacompanhada para um percurso e sua canoa virou. Sem o colete salva-vidas, a atleta morreu porque não foi capaz de nadar de volta para a canoa.

Infelizmente, acidentes envolvendo jovens que superestimam o quanto são capazes de nadar ou que negligenciam as situações de risco são bastante comuns.

Um estudo colaborativo realizado por pesquisadores da Nova Zelândia, da Noruega e do Japão e publicado no International Journal of Aquatic Research and Education, investigou a associação entre a “percepção sobre o nível de risco para afogamentos”, a “percepção da competência” e a “competência real” para nadar e entre jovens.

A pesquisa que contou com a participação de 373 estudantes universitários (50% entre 17 e 19 anos / 50% entre 20 e 29 anos) ingressantes em cursos de Educação Física, foi conduzida em duas etapas:

Na primeira etapa, os participantes responderam a um questionário sobre suas competências para desempenhar seis habilidades básicas de sobrevivência aquática: distância de nado, flutuação, nadar de costas, mergulhar, colocar o rosto na água e nadar submerso.

As questões seguiam o modelo de respostas fechadas, como no exemplo:

“Quantos metros você consegue nadar sem parar em uma piscina de 25 metros? a) <50m; b) 51m a 100m; c) 101m a 200m; d) 201m a 300m; d) >300m”.

Também foi solicitado aos participantes que, de acordo com uma escala do tipo “Likert”, que vai de zero (nenhum risco) a dez (risco extremo), classificassem o seu risco de afogamento em diferentes situações, como por exemplo, ao remar uma canoa por 100m a partir da margem de um lago.

Após a análise das respostas ao questionário, permaneceram no estudo somente os indivíduos que relataram possuir habilidades mínimas para nadar, sendo excluídos aqueles que pudessem ser colocados em risco de afogamento durante a realização da segunda etapa do estudo, que consistiu de seis testes práticos:

  1. Nadar por 15 minutos ininterruptamente, sem exigência de nado específico nem de velocidade. O desempenho no teste foi classificado de acordo com a distância percorrida, em uma escala de valores entre 0 (menor que 50m) e 5 (maior que 300m).
  2. Flutuar na parte funda da piscina com mínima movimentação de braços e pernas. Desempenho classificado em uma escala de 0 (tempo <2 minutos) a 4 pontos (tempo >15 minutos).
  3. Realizar o nado submerso no comprimento da piscina (escala de 5 pontos, desde “não completou” até “completou” a distância de 25m)
  4. Nadar 100m de costas sem técnica definida nem exigência de velocidade
  5. Mergulhar até o fundo da piscina (2 metros), avaliado em uma escala de 0 a 4 pontos, desde “não completou” até “completou com muita facilidade”.
  6. Nadar por baixo da água, mas próximo à superfície, na parte funda da piscina (escala de 0 a 4 pontos, desde “não completou” até “completou com muita facilidade”)

A análise da correlação entre as respostas ao questionário e o desempenho nas habilidades de sobrevivência mostrou que a maioria dos estudantes, mesmo tendo vivenciado anteriormente um programa de habilidades aquáticas básicas, julgou que seu nível de habilidade não era suficientemente alto. Por outro lado, houve uma associação bastante forte entre a distância que eles julgaram que seriam capazes de nadar e aquela que realmente foram capazes de nadar.

Segundo os pesquisadores, é difícil explicar essa associação, mas talvez isso reflita a ênfase dada nos programas de natação, à distância nadada em detrimento de outras habilidades mais relacionadas à sobrevivência.

Com relação ao desempenho nos testes práticos das habilidades de sobrevivência, 35% dos estudantes não foi capaz de flutuar por mais de 2 minutos e 48% deles não conseguiu manter a flutuação por mais de 6 minutos. Isso pode estar relacionado ao fato de que, na Austrália e na Nova Zelândia, os programas de recreação aquática são bastante populares e não enfatizam a aprendizagem de habilidades básicas da natação. No entanto, em situações de sobrevivência, essa é a principal habilidade para evitar um afogamento.

Os resultados da pesquisa sugerem que aqueles estudantes não foram capazes de dizer precisamente (respostas ao questionário) quais suas habilidades aquáticas de sobrevivência, e nem seu nível de risco para afogamentos. Desta forma, os pesquisadores apontam para a falta de confiabilidade em instrumentos de autoavaliação das competências de natação e autossalvamento no contexto da prevenção de afogamentos.

Esta pesquisa traz à tona um problema comum também no Brasil: os casos de afogamento provocados pela falta de percepção sobre as competências individuais para nadar, que vão muito além de saber as técnicas dos nados competitivos ou de ser capaz de completar pequenas distâncias. Além disso, conduz a uma reflexão sobre a importância do ensino e treinamento das habilidades aquáticas fundamentais, bem como das habilidades de autossalvamento em qualquer faixa etária.

Dados do artigo na íntegra: MORAN, K.; STALMANN, R. K.; KJENDLIE, P. L.; DAHL, D.; BLITVITCH, J.; PETRASS, L. A.; McELROY, G. K.; GOYA, T.; TERAMOTO, K.; MATSUI, A. SHIMONGATA, S. Can You swim? An exploration of measuring perceived and real water competency. International Journal of Aqcuatic Research and Education. 2012, vol. 6, p. 122-135.

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